terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O PÉ DA VÓ DEU

 

Essa é uma das muitas e gostosas histórias que aconteceram no meu tempo de menino, lá na casa da minha "vó Arzira”, um recanto de prazer e muitas estripulias.

E o personagem é meu primo Marcinho, filho do titõe, de uma geração posterior à minha, que, assim como eu e outros primos, também desfrutavam do terreirão de terra vermelha em mil aventuras e brincadeiras e de uma infância maravilhosa.

Ele, na certa, já saltou e pulou por entre a plantação de milho, fez cataventos com as folhas de vargens, já tomou chá de funcho, também se deliciou com os biscoitos fritos de vovó, tomou o café que vinha daquele bule azul de malta com florezinhas vermelhas, comeu a comida da panelinha de ferro feita no fogão de lenha, na cozinha esfumaçada, bebeu água límpida e cristalina daquela cisterna, brincou de esconder no paiol, já se esgueirou por entre as bananeiras, escorregou no barrancão, tobogã natural, horror das mães lavadoras de roupas. Subiu, desceu e até caiu de muitas árvores do quintal e adjacências, já encheu as vistas com o verde e as matas distantes, numa época em que o nosso querido bairro do Chapadão, na pequena Pitangui MG, era apenas verde e terra vermelha.

Deve ter perguntado as horas ao querido vô Joaquim para ver o bondoso velho tirar do bolso, com todo o charme, calma e elegância dos velhos tempos, seu relógio Ômega tão bonito. Andou e pulou pela casa, talvez tenha dormido no colchão de capim e ouviu os gritos de “truque” nas alegres tardes de domingo.

Na certa, Marcinho também levou uns xingos de vovó, num momento em que o temperamento forte e o sangue italiano nas veias se apresentaram contrastando com a doçura e chorosidade de outros momentos. Alternâncias de humor e de amor. Na certa, desfrutou de uma época maravilhosa e aprontou muito por lá.

Mas ele tinha um costume curioso: ao final do seu dia, já na horinha de ir embora, pedia à vovó um cruzeiro para comprar chup-chup da Tia Lia. Chup-chup, em alguns lugares conhecido como sacolé, em outros como geladinho, é uma deliciosa iguaria doce, produto constituído de açúcar, leite ou água, e algo mais, achocolatado, sumo de frutas e essências de diversos sabores, vendido em um saquinho de plástico com um nó bem dado, pela nossa amada tia Lia (Tilia na língua dele), que morava um quarteirão acima da casa de vovó.

— Vó, me dá um cruzeiro para comprar chup da Tilia?

E todo dia a história se repetia. Um dia, a vovó falou:

— Assim eu não aguento, não tenho dinheiro todo dia para lhe dar. Vamos fazer o seguinte: vou plantar um pé de dinheiro lá no quintal; assim você terá dinheiro todo dia.

No outro dia, ela informou que havia feito a plantação e agora esperava a colheita.

— Está vendo aquela árvore pequenina lá? É o pé de dinheiro. Agora tem que esperar nascer a nota.

Certo dia, o menino chega por lá e encontra uma nota de um cruzeiro pendurada na árvore. E fica louco e sai gritando pelo terreiro.

Vai até a casa da tia Lia e conta a ela a novidade:

— Oh, Tilia, o pé da vó deu, o pé da vó deu, o pé da vó deu! — não cansava de falar.

Que coisa mágica essa, não é mesmo? Uma meninice e um pé de dinheiro. Quem não quer?

Ainda hoje, quando, nas minhas rondas de saudade, passo em frente ao que era a casa da vovó (ainda tem um resquício de quintal, a terra vermelha insiste), desço o morro em ponto morto e fico olhando, olhando, tentando encontrar...

Se acho esse pé, peço ao dono da casa uma mudinha.

MÚCIO ATAIDE

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